Murray chama Ivan, o Terrível, para ganhar Slam em 2012
às
18h35 - por
Chiquinho Leite Moreira
Sério, compenetrado e com extrema disciplina profissional, Ivan Lendl estava longe de ser uma figura simpática nos seus tempos de Tour. Lembro que para o primeiro número da Revista Tenis, edição Brasil, o então editor, José Nilton, encarregou me de fazer uma exclusiva com o bicampeão de Roland Garros, em 1986, e comprar material fotográfico. A foto da capa refletia nitidamente a imagem do tenista tcheco e o Zé deu de manchete "Cara de mau, gênio de campeão". Naquela época era relativamente mais simples conseguir uma entrevista. Não éramos mais do que 300 jornalistas, contra os mais de 1,5 mil dos dias de hoje. Mas ainda assim, diante do carrancudo jogador não foi muito fácil tirar boas histórias. Tive de recorrer aos bastidores para dar um tempero mais agradável e interessante à reportagem.
Esta experiência com Lendl, nascido na inóspita Ostrava, só foi ter uma resposta, uma explicação ao seu comportamento, muitos anos depois, quando estive em sua cidade natal com a equipe brasileira da Copa Davis, com Guga e Cia, para o confronto contra a República Tcheca. No quarto do hotel havia um comunicado explicando que a população local - muitos de origem de mineradores - não era hospitaleira. Sem dúvida, um fato intimidador colocar um aviso destes justamente num local de estrangeiros, mas para mim soou como um clique ao referido encontro com Lendl, em Roland Garros de 1986.
Lendl rivalizava na sua época com jogadores como Mats Wilander, Stefan Edberg, que compartilhavam de sua frieza, ou deparava-se diante de contrastes como o temperamental John McEnroe, ou o explosivo Boris Becker. A primeira vez que acompanhei um jogo do tenista tcheco foi na final de Roland Garros de 1985, quando perdeu para Mats Wilander. Era minha estréia no torneio parisiense e minha credencial não me dava acesso à quadra central para o dia da final. Mas o tempo naquele dia estava terrivel e carrancudo. Chuva fina, frio e a partida sofreu diversas paralisações. Num destes intervalos, a tribuna de imprensa (que não era coberta como hoje) ficou praticamente vazia. O porteiro deixou me entrar e fiquei impressionado com os golpes do tcheco. Sua bola, numa superfície pesada, parecia curta e nada agressiva aos meus olhos inexperientes. Mas depois de alguns games, notei que imprimia tanto efeito na bolinha, que ao quicar no chão ganhava uma velocidade tamanha capaz de jogar Wilander lá p'ra trás. Como o sueco também não era qualquer um, manteve-se no jogo e venceu a partida.
Antes de encerrar a carreira, Lendl ainda viu o aparecimento de um jovem talento: o norte-americano Pete Sampras. Como sabia do estilo austero e determinado do jovem tenista, ele o convidou para um período de treinamentos em sua mansão nos Estados Unidos. Já havia adquirido a cidadania americana e tinha em sua casa uma quadra das mais sofisticadas, como contou-me certa vez Cássio Motta. O tenista brasileiro sabia da história que nesta quadra, Lendl havia instalado um sistema em que ficavam marcadas os locais exatos em que a bolinha caia. Isso servia em muito, quando 'passava seu tempo' trocando bolas com uma máquina, o chamado canhão, equipamento muito comum nos Estados Unidos, mas praticamente inexistente no Brasil.
Depois que Lendl encerrou a carreira, só tive mais uma oportunida de vê-lo. Foi no torneio de Miami. Ele estava gordo. Isso mesmo gordo e sorridente, como jamais havia visto. Ouvi dizer que se dedicou ao golfe com afinco e até teria pensado em ser profissional do PGA Tour.
Agora Ivan Lendl volta ao Tour de tênis como treinador de Andy Murray. Sua missão é de dar ao britânico um título de Grand Slam. Ele sabe o caminho das pedras. Tanto é que ganhou oito troféus desta importância e tem apenas uma frustração a de jamais ter vencido em Wimbledon. Lembro bem de um episódio seu no All England Club. Fazia, acredito ser uma semifinal contra Becker, e numa tentativa de intimidar o juiz de cadeira, por sinal o brasileiro Paulo Pereira, reclamou em voz alta: "Você não imagina o trabalho e o sacrifício que venho fazendo para vencer aqui e você não pode estragar tudo". Paulo Pereira estava seguro da marcação, não tinha dúvidas, pois a bola havia saído na linha de sua cadeira. Tanto foi que ninguém colocou em dúvida a definição do ponto, mas a declaração de Lendl rendeu muitas histórias.
Esta sua determinação, seriedade e profissionalismo certamente serão importantes para colocar Andy Murray em condições de conquistar o tão sonhado Slam. Que eu saiba, Lendl não tem experiência como treinador, mas vários outros técnicos ao seu estilo alcançaram muito sucesso. Veja o exemplo de Larri Passos, que com sua mão forte fez o surfista catarinense reinar nas quadras de todo o mundo.